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Fuga

Se for compartilhar, ressalte o nome do autor: Alexandre Tavares Sergio

Olhei o céu...
Ah ! Quantas estrelas, que lua, que bela noite !
Vento que vem do norte faz com que as árvores dancem
Movimentando seus galhos sob a luz forte de mercúrio...
Duas crianças correm e se esbarram mais a frente...
As estrelas parecem querer falar comigo,
Ergo as mãos para tocá-las e sinto o vazio no fechar das mãos,
Minhas mãos vazias, cheias de ar...
Respiro fundo e o ar que respiro enche meus pulmões
E sinto, vida nova que entra em mim...
As duas crianças viram a esquina próxima desaparecendo por trás dos prédios...
Na beleza da noite, uma lágrima rola por minha face,
Face dura e triste de um coração vazio...
Não me deram a chance de falar, de viver,
Me negaram o instante vital de felicidade simples
Com o qual tanto sonhei... Como fui tolo !
Os carros passam insensíveis pelas ruas,
Com seus faróis iluminando um curto trecho do asfalto,
Como na estrada que se nos apresenta, aos nossos olhos...
Meus sonhos, meus desejos, hoje são perdidos
E as pessoas fogem de mim com uma expressão dura
E sentem-se incomodadas com minha presença...
O tempo é curto e se fez rápido em minha vida...
Invoco o passado e as imagens voltam a me atormentar...
Era tão pequeno, uma criança perdida no mundo adulto...
Me feriram, me magoaram, senti vontade de correr...
E corri... Ainda me lembro dos olhares assustados,
Perplexos por eu conseguir desenvolver tal velocidade...
Corri tanto, tanto... E não consegui voltar...
Como o tempo, impossível retornar naquele caminho...
E fui vivendo ora aqui, ora ali...
Os grãos de areia da ampulheta continuaram a cair,
Em seu ritmo incessante, enervante,
E continuam ainda nesta tortura cruel e imortal...
Não agüento mais esta visão dos grãos e grito...
Grito alto e forte tentando expelir a imagem de minha mente...
E mais alto e mais forte...
-" Louco ! " - dizem uns que passam...
Será que eles não vêem a areia deslizando continuamente ?
Será que enlouqueci ?
Não ! Os loucos é que me olham...
Encolho meu corpo pequenino nos trapos que me cobrem...
Quantas horas terão passado desde o pôr do sol,
Tão lindo, a oeste, por trás dos gigantes de concreto,
Vidro, metal, frios monumentos da inteligência humana ?
Quantas horas terão passado ? Quantas crianças terão partido,
Em sua fuga ingênua do mundo que as maltrata, e pisa,
E desacredita, destruindo seus sonhos, suas esperanças ?
Quantos anos terão passado ?
Já não sou uma criança, frágil de corpo e alma...
Meus cabelos longos, sujos, se movem com o soprar do vento
Como a afagar minha pele tão castigada
Me fazendo o carinho de mãos invisíveis...
Sorrio... Sorriso doce de satisfação...
Ergo meu olhar e encontro a lua tão brilhante...
É como se ela falasse comigo...
-" Filho és meu em tuas tristezas as quais tenho ouvido...
Filho és meu por teu sofrimento ao qual tenho assistido...
Filho és querido e recolho-te em meus braços,
Na luz, sob minha proteção de tua mãe que sou..."
Levanto-me e a encaro fixamente...
Ela me chama, eu sei... Devo ir...
E corro, mais uma vez corro,
E sou livre, estou livre...
É chegado o meu momento de felicidade,
Terei o carinho que preciso, o amor com o qual sonhei...
Corro mais e mais...
As duas luzes se aproximam, elas vêm me levar...
E vou seguro, sem medo em sua direção,
Estico meus braços e tento segurá-las...
O mundo gira voltas e mais voltas e o solo já não está sob meus pés...
Tudo começa a ficar turvo, e escuro, e sem vida...
O motorista sai de seu carro e vê o corpo disforme estendido...
Uns que passam dizem quase em uníssono:
-"Louco !"