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Sofreguidão

Se for compartilhar, ressalte o nome do autor: Alexandre Tavares Sergio

Dezessete e trinta... Era a quarta vez naquele minuto que olhava para o relógio do computador... O misto de ansiedade e frustração tomava conta do lugar e seus olhos, agora, não desgrudavam da porta meio aberta.

Passara dez horas de seu dia se dedicando em cada instante aos seus afazeres, aguardando aquele momento. Sabia o que dizer. Tinha decorado cada vírgula! Mas e as mãos? Sempre as tivera como um problema, sem saber ao certo onde as deixar. E se fizesse um movimento errado e derrubasse qualquer coisa no chão? Não... não podia se deixar levar por esses pensamentos...

Dezessete e trinta e dois... Será que não havia recebido o recado? Será que a mensagem não fora compreendida? Sei lá... Às vezes divagava demais quando escrevia... Devia ter sido mais objetivo, devia mesmo... mas era tarde para isso e mais uma vez se desvencilhou do pessimismo...

Dezessete e trinta e oito... Puxa... Começava a pensar que havia sido esquecido... Uma sensação de abandono o envolveu e, antes que tomasse conta de seu corpo, resolveu relaxar um pouco...

Alguns segundos e a conexão se estabeleceu... Não era muito boa, mas daria para se distrair um pouco. Xadrez, sim, boa idéia... Não foi preciso esperar muito no site para arranjar um oponente. Era conhecido. Preparou-se, movimentou seu e peão e, acordando em meio a um sinal das caixas de som, viu-se derrotado em quinze lances... Não conseguia se concentrar...

Nossa! Eram dezessete e quarenta e nove!

Nada ainda... Um "boa tarde" de um lado e de outro e luzes se apagando...

Em um movimento de puro impulso levou os dedos à boca e logo os recolheu. Havia prometido que não mais roeria as unhas! Não se deve quebrar uma promessa!

Dezessete e cinqüenta e dois... Definitivamente algo acontecera... Não fora objetivo, isso sim... Sempre se perdia em palavras, claro! Havia sido isso! Que tolo... Era o culpado pelo abandono... Se tivesse sido um pouco mais claro...

Dezessete e cinqüenta e três... Mas e se tivesse sido compreendido e apenas ignorado? Era uma hipótese plausível, sim... Quem achava que era? Apenas um peão em um tabuleiro de diversos Reis. Fazia o que era para ser feito e não podia esperar mais do que já conseguira... Por que pensar que poderia gritar para o mundo? No muito, sussurraria um bom dia e daria um sorriso amarelo e tímido...

O desconforto se apoderou de seus sentidos. O simples pensamento de ter passado incógnito em todo aquele tempo o deixara completamente desanimado.

Sua imagem refletida na proteção de tela do computador demonstrava o que ele era naquele lugar... Um puro reflexo de uma função determinadamente bem descrita e desempenhada com esmero. Fora atrevido, concluíra.

Uma sombra se movimentando fora de sua sala o faz levantar de um salto... O coração bate forte e rajadas de idéias desconexas passam pela sua mente... Ouve passos e não se contém de esperança... Expulsa todas as idéias negativas e repassa as palavras mais uma vez, rapidamente, a fim de evitar erros ou um desconfortável gaguejar.

Com a aproximação, fecha os olhos e aguarda a primeira palavra... Não se contém mais e se atira até a porta antes que esta fosse aberta, num impulso desenfreado de ansiedade e sofreguidão e, ao se deparar com a cena, aquele sorriso de lado, meio perdido no rosto cansado pelo dia tumultuado, deixa uma lágrima cair sem controle pelo seu rosto...

"- Aqui está senhor... Desculpe a demora, mas é que a cafeteira daqui de cima quebrou e tive de ir lá embaixo fazer o café... Está fresquinho... Com licença..."