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A solução|Audacioso|Ausência|Desejo|Fim|O pacote|Quarta|Sofreguidão|

Quarta

Se for compartilhar, ressalte o nome do autor: Alexandre Tavares Sergio

Quando chegou à porta já sabia que era tarde demais. O suor escorria pelo corpo cansado, esgotado da luta recente em se manter alerta. Não tinha esperança de avançar mais nenhum passo.

Foram horas tentando pôr em ordem pensamentos e ações, sem sucesso.

Sentou-se no piso frio, deixando as pernas baterem pesado na cerâmica. Seria dessa forma o fim de tudo? Não queria desistir, mas não conseguir pensar em outra saída. Não tinha mais forças, mais vontade. Estava entregue.

Correu as mãos pelo tronco chegando ao bolso da camisa. Algodão, claro. Se era para terminar tudo, que fosse com estilo. Não havia chegado até ali para sair de cena com uma blusinha de malha, torpe e mal cortada. Usaria linho, se a roupa tivesse chegado da lavanderia. Mas como não houve tempo, pelo menos algo de bom nível. As iniciais no bolso, tateadas até chegar ao maço novo, fechado ainda, indicavam a qualidade do material.

Puxou o fio da embalagem, liberando o acesso aos seus companheiros de sempre. Escolheu o mais próximo e voltou a buscar o outro amigo, aquele que às vezes falhava, mas que ao final sempre correspondia. Encontrou-o descansando no lado esquerdo da calça. Não usava jeans. Não sabia o nome do tecido mas tinha certeza de que não era qualquer coisa. O preço que pagara na peça já dizia que não podia ser qualquer desses lixos de lojas de departamentos.

Acendeu o cigarro, deu uma longa tragada e explodiu em fumaça alguns segundos depois. Olhou longamente para o teto e deixou que o ar escapasse lentamente. Definitivamente não gostava de estar ali, mas sabia que não teria escapatória. Ouvia ao fundo aquela música, vozes, sons que até bem pouco tempo fariam seu corpo tremer. Estavam cada vez mais próximos. Não tinha dúvidas.

Tentou virar o pulso mas o braço não respondia. Dor.

A boca estava muito seca. Daria a vida por um copo d’água. Riu da possibilidade da troca. Daria mesmo se fosse possível. Os lábios estavam para rachar ao peso da desidratação. O limite já estava no passado e não havia retorno.

Os sons. Gritos. Seria uma multidão que o alcançaria enfim. Queria se deixar levar, mesmo sabendo que não conseguiria se sentir chegar ao destino. Não. Não iria dessa forma.

Lembrou de alguns dias atrás quando ainda podia pensar no presente e no futuro próximos. Ela estava linda, com aquele colar imitando flores, olhos brilhantes e um sorriso que abraçava o mundo. Sabia seu nome, tinha quase certeza, pensava que sim. A mente divagava novamente.

Eles riram quando disse que sua boca tocou a dela. Palhaços, coloridos pela inveja. Não sabiam que há muito os dois se falavam e combinavam esse contato. Tolos.

Quando se beijaram tudo ruiu. Castelos desabaram, flores murcharam, sonhos deixaram de ser. Se perderam. “Olhos nos olhos”, ela disse. Pertenceram imediatamente um ao outro, sem máscaras, deixadas de lado, sobre os restos do dia. Se despiram de tudo. Se entregaram por completo.

Agora ela estava ali, próxima e inerte, deitada sobre o vermelho que insistia em escorrer pelo chão. O que fizeram? Por que fizeram? Lágrimas. Chorava não pelo que havia realizado mas pelo que deixava de executar. Se eles não tivessem ido tão longe...

Os outros há muito tinham saído, deixando os dois naquela sala sem vida, sem sabor. Não quiseram esperar e acabaram disparando o final sem ter conhecimento do que causaram com sua ausência.

Não lembrou o porquê da discussão, não conseguiu. Fora algo muito bobo, sem sentido. Teria sido apenas um pequeno desentendimento se fosse em outra época, mas naquela hora foi mais do que suficiente para uma briga. Se empurraram. Se afastaram bruscamente. Foi mais que isso e ela foi ao sofá, tocando depois o piso.

Olhou para as mãos dela e não viu cortes. Não teria marcas. Um roxo, talvez, uma vermelhidão sobre a pele na área de maior impacto. Mas no resto do corpo, não havia garantias.

Estava acabado.

Gritaria. Deviam estar em frente ao prédio. Ouviu as batidas intensas e frenéticas.

Lutou para manter os olhos abertos, uma última vez, insistindo em acompanhar os sons, mas não conseguiu. Desfaleceu.

E sua camisa se encharcou no resto de suco de tomate com especiarias, derramado no cair do copo durante o desentendimento do casal.

Amor de Carnaval, diriam alguns, terminado em cinzas do cansaço extremo na folia desmedida...