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Escolha seu conto

A solução|Audacioso|Ausência|Desejo|Fim|O pacote|Quarta|Sofreguidão|

O pacote

Se for compartilhar, ressalte o nome do autor: Alexandre Tavares Sergio

As duas trocaram olhares rápidos, mas significativos. Rapidamente, a mais próxima à porta levantou-se de um salto, trancando-as entre as quatro paredes. Enquanto isso, do outro lado do recinto, ao lado da janela, a outra cerrava as persianas, obrigando-as a forçar a visão em meio ao ambiente viciado e sombrio.

De volta cada uma à sua cadeira, iniciaram o estudo do embrulho. Não havia qualquer identificação aparente, onde o remetente simplesmente aparecia identificado com um nome genérico que muito bem poderia ser aplicado a qualquer loja de departamentos, boteco, farmácia etc. O papel pardo que envolvia a caixa se encontrava perfeitamente esticado, dobrado profissionalmente nas arestas do paralelogramo, não permitindo qualquer visualização do objeto envolvido. Não havia fitas, cartões, dedicatórias, o que cedia ao pacote uma aparência demasiadamente distinta e discreta.

- Só pode ser... - pensou em voz alta a magricela da porta, arrumando a posição dos óculos de lentes grossas.

- O que menina? - devolveu a “chocólatra” inveterada, enquanto devorava o penúltimo bombom da caixa recém aberta.

- Humm... - grunhiu a primeira - O pessoal lá de cima disse que viu quando ele saiu daquele prédio com esse troço em baixo do braço. Pode muito bem ser um produto daquela loja...

- Que - lambeu o chocolate preso ao indicador da mão direita - loja, criatura? Não quer me dizer que é aquela onde passamos em frente ontem, com aquelas coisas penduradas em vermelho e preto, brilhando...

- E por que não seria? Esse jeito quietinho dele, essa postura de “senhor recatado”, bem que poderia ser uma espécie de máscara, sei lá. - pegou uma régua de acrílico - Vamos ver o que podemos descobrir.

Tomando as medidas, anotou em um papel largura, altura e profundidade de cada um dos lados, identificando-os com letras maiúsculas. Com cuidado, para não estragar a forma e o papel do envoltório, segurou-o com as duas mãos, dando leves sacudidelas para cima e para baixo na tentativa e determinar seu peso. Constatou que nada se mexia, o que revelava o cuidado no armazenamento do que quer que ali estivesse oculto.

- Nada solto. Deve ser uma daquelas embalagens forradas por dentro ou com aquele papelão que se adapta ao formato. - sem tirar as mãos do pacote, olhou por cima dos óculos para a colega em frente, piscando rapidamente um dos olhos - Falando em formato, será que tem alguma coisa cilíndrica aqui dentro?

- Se for cilíndrico pode até ser de chocolate - brilhou os olhos, empurrando para o lado mais distante da mesa a caixa com o último e preferido bombom. - Eu li em uma revista que eles agora fazem coisas assim também. Parece que tem uma boa procura por esses produtos.

- Não sei, parece pesado demais para ser de chocolate. - mais uma sacudidela - Pode ser do tipo que leva pilhas, ou liga na eletricidade. - tremeu a voz - De qualquer forma, parece meio grande, não acha?

- Que nada! Se tirar a embalagem, devem sobrar só uns 20 centímetros - pegou com a mão esquerda o papel com as anotações sobre os tamanhos dos lados e com a direita a régua - o que não eu não chamaria de grande.

- Mas com 20 centímetros já causa uma boa impressão, não é? - sorriu abertamente, mostrando os dentes amarelados pelo vício do cigarro, enquanto colocava o pacote de volta ao seu lugar, tentando deixá-lo exatamente na mesma posição em que o encontrara - Será que ele vai levar para casa? Ele é solteiro e pelo que ouvi dizer, gosta muito “da fruta”, entende?

- Eu bem reparei nos olhares que ele lança para a menina do quarto andar. - desviava o olhar ora para o pacote, ora para a caixa de chocolates - Ele não olharia assim para ela se não gostasse... Será que ele vai dar de presente?

- Até poderia, mas um presente desse tipo só pode ser dado a alguém com quem já se tem bastante intimidade, não acha? Seria estranho ele dar algo assim para uma de nós duas, por exemplo, com quem ele mal troca algumas palavras. - ajeitou novamente os óculos e pôs-se a tamborilar os dedos sobre a bancada comum que ligava as estações de trabalho - Pensando bem, eu receberia bem um presente desses em um primeiro encontro. Ele é bonito, simpático e, pelo visto, gosta de “novidades”. Seria interessante sair com ele.

- Interessante, pois sim. - desdenhou, agora com o bombom rolando entre as mãos - Acha mesmo que nessa sala ele escolheria você para sair? Você mais parece uma chaminé com esse cheiro de cigarro entranhado na pele. Um homem como ele com certeza escolheria alguém mais vistosa, de mais presença, como eu...

- Muita presença mesmo, não é? - meio gritou, meio grunhiu - Ele iria precisar de pelo menos três braços unidos para poder pegar você pela cintura! - riu sombriamente - Nem que você quisesse muito esse presente seria seu.

- Você é uma invejosa de marca maior, isso sim! - quase gritou as palavras em meio à mastigação do último dos bombons - Quando ele chegar, preste atenção na forma como ele vai me tratar e a você. Não precisa ser muito esperta para perceber que eu sou o tipo dele!

- Sim, vamos ver! - decidida a não prolongar a discussão, virou-se de frente para o computador tentando dar continuidade ao trabalho inacabado. Abertas as persianas, a “chocólatra” retornou à posição original, olhando de lado para o embrulho, de quando em vez.

Aquelas duas horas passaram lentamente, com as palavras não chegando às telas onde os textos deveriam ser concluídos. O trabalho simplesmente não se desenvolveu e a atmosfera da sala fechada, com o ruído do condicionador de ar ao fundo, pesava sobre os ombros das duas.

Privadas de suas maiores obsessões, pela proibição do fumo em ambientes fechados na empresa e pela falta do chocolate, esgotado “há muito”, esperaram ansiosamente pelo retorno do colega, ausente desde a manhã daquele dia. Este, ao remexer a fechadura, despertou-as repentinamente da inércia conquistada com a rusga anterior, sobressaltando-as.

À porta aberta, primeiro adentrou o sorriso marcante e os cabelos aos lados grisalhos do antes ausente motivo de contenda.

- Boa tarde! - disse sem desejar realmente, por pura polidez. - Desculpem-me, mas tive um imprevisto.

- Não há problema algum! - apressou-se por dizer a magricela. - Estamos mesmo aqui perdidas com esses textos que não se escrevem sozinhos. - sorriu timidamente, incerta sobre a percepção do tom jocoso.

- Para ser franca, assumindo minha curiosidade, não pude deixar de perceber aquele pacote em cima de sua área de trabalho. - virou-se de frente ao recém chegado, quase caindo da cadeira ao cruzar as pernas na tentativa de se mostrar sensual. Recuperando o equilíbrio, voltou à carga - O pacote é tão discreto que aguça a imaginação. Seria um presente?

- Não tem vergonha? - recriminou a magricela, mesmo com a curiosidade quase explodindo através de seus poros - Não seja indiscreta assim. Ele vai ficar sem jeito...

Recuperando-se do choque inicial da observação invasiva, o homem sorriu em amarelo e pegou o pacote cuidadosamente com as duas mãos. Pensou por um instante e começou a retirar as fitas adesivas cadenciadamente.

- Na verdade, - tossiu suavemente, preparando o caminho para o discurso que se seguiria - é realmente um presente. - pausa para aumentar o suspense - Um presente para nós três!

As últimas palavras, ditas com ênfase proposital, calaram às mentes das colegas brigadas profundamente. Deixando de lado a animosidade, ambas sorriram abertamente, como se a reação tivesse sido combinada. Percebendo o movimento concordante das duas, o homem pausou a abertura do pacote, erguendo os olhos claramente brilhantes.

- Então, gostaram da idéia? - questionou, buscando captar qualquer alteração no ambiente favorável - Achei que um presentinho desse tipo poderia nos aproximar. Afinal, vivemos mais tempo os três aqui do que em nossas casas.

- Tenho certeza de que nos aproximaria e muito! - arrematou a magricela, mostrando sinais evidentes de satisfação - Apesar de parecer um pouco estranho à primeira vista, eu tenho a mente aberta para este tipo de coisa.

- Hummm... Se ela concorda, eu também não tenho problemas com isso. Já vi cada coisa nessa vida e isso realmente não me parece nada demais. - piscou os olhos rapidamente, mostrando-se um pouco nervosa. A abstinência do chocolate estava se manifestando.

- Já que concordamos os três, - ele não se continha de felicidade - precisamos ver qual a melhor posição!

Enquanto a fumante tossiu, engasgando com o ar, a outra praticamente voou de sua cadeira, ficando em pé de um pulo, perdendo parte do salto alto de um de seus sapatos. Equilibrando-se apoiada à perna esquerda, abanando apressadamente o rosto, comentou:

- Não imaginava que você fosse assim tão direto. Gosto disso!

- Realmente essa questão da posição me preocupou desde o momento que bati os olhos nele. - a dúvida era sincera, delatada pelo movimento ascendente das sobrancelhas - Apesar da vendedora afirmar que a base ligada à eletricidade não atrapalharia no encaixe, eu fiquei em dúvida se seria melhor em cima da mesa ou apoiado à janela.

- Vamos tentar das duas formas! - recuperada com um gole da água parada em seu copo desde a hora do almoço, deixando de lado os óculos, a magricela levantou-se nervosamente, desabotoando o primeiro botão da blusa de babados que usava - Assim, podemos ver se realmente o encaixe não atrapalha de alguma forma. Se bem que, tendo flexibilidade, tudo se arruma. - olhou diretamente para a colega franzindo a testa levemente.

- Por mim, tudo bem, - preferiu não tomar conhecimento da acidez da observação e voltou a segurar o pacote na intenção de abri-lo - mas tem mais uma coisinha: a vendedora me disse que é musical...

- Homem! Sinceramente, além de direto, vai gostar de novidade assim lá em casa! - ela apertava as pernas tentando se manter equilibrada com o salto quebrado, mas mesmo assim tremendo da cabeça aos pés de ansiedade.

- Tenho que concordar com ela. Quem o vê assim tão quieto e recatado, não imagina do que é capaz, hein!

- Eu achei que não seria um problema. - ele estava visivelmente desconcertado - Se isto for um empecilho, levo para casa...

- Nem pense nisso! - gritaram as duas quase em uníssono.

Rapidamente a “chocólatra” desvencilhou-se do par de sapatos, colocando o braço em volta dos ombros de seu colega. Enquanto isso, percebendo a manobra da “amiga”, a fumante propositalmente colocou as mãos no pacote deixando-as esbarrar às dele, que ainda segurava o embrulho.

Sentindo-se mais uma vez encorajado, posicionou o presente em cima da bancada e pôs-se a rasgar o papel avidamente, seguido de perto pelo olhar das companheiras de trabalho. Segundos depois, surgiu uma caixa branca, sem marcas ou dizeres. Como que para aumentar o suspense antes da apresentação do brinquedo, ele ergueu o invólucro acima das cabeças dos três, depositando o, em seguida, sobre a bancada em frente ao seu computador.

Em um movimento quase sincronizado, as duas colegas abraçaram sua cintura simultaneamente à saída da caixa do objeto tão angustiantemente cobiçado.

Preocupado em encontrar uma tomada de energia elétrica disponível, ele não reparou no suspiro sentido e profundo da fumante nem na lágrima sofrida de sua colega, cada uma indo ocupar seu respectivo posto de trabalho.

Enquanto isso, abafando o ruído do condicionador de ar, enquanto tremulava sobre uma base giratória, a bandeira do Botafogo de Futebol e Regatas entoava a melodia do hino do clube, incessantemente...