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A solução|Audacioso|Ausência|Desejo|Fim|O pacote|Quarta|Sofreguidão|

Fim

Se for compartilhar, ressalte o nome do autor: Alexandre Tavares Sergio

Como sempre ele estava lá... Há anos cumprindo seus horários, suas metas, seus deveres, sem ao menos questionar o destino. Pouco pensava na automatização que o cotidiano lhe impunha e mantinha a certeza de que tudo se repetiria nos dias seguintes.

Via pessoas e pessoas passando sem se dar conta de sua existência e, mesmo que soasse fortemente sua voz, dificilmente alguém olhava para ele.

Vez ou outra, uma alma caridosa clareava seu olhar enevoado pela fumaça dos carros, aliviando o desconforto de uma visão embaçada.

Ao amanhecer, via quando o jornaleiro sonolento iniciava seu dia, recolhendo os jornais e os organizava cuidadosamente diante de sua banca. Em seguida, apareciam os primeiros clientes, muitos apressados, na correria para não chegar tarde no trabalho. Algumas palavras sobre o jogo do dia anterior, ou mesmo sobre o futuro incerto do país, recolhendo o troco e seguindo em suas vidas.

Com o movimento de seus braços, novos rostos pareciam surgir na praça, sem grandes novidades.

Havia o pipoqueiro que reduzia o preço dos saquinhos para que todos pudessem comprar a pipoca quentinha e ainda saltitante.

Um homem, com sua pasta e roupas esgarçadas pelo tempo, se sentava no banco em frente à fonte, há muito inativa por falta de manutenção. Ficava ali durante todo o dia, até o anoitecer, quando se levantava e partia para casa triste e sem esperanças.

Os meninos correndo de um lado para o outro do que um dia fora um campo de futebol, lutando contra a dificuldade de chutar uma minúscula bola de meia, sem se importar com o sol forte ou a chuva torrencial.

Em um canto separado dos demais, sempre um ou dois casais abraçados, trocando juras e beijos, em promessas que talvez nunca fossem cumpridas.

No coreto, onde antes bandinhas se apresentavam para um público ávido por um pouco de cultura e diversão, se encontravam aninhadas algumas figuras em um sobreviver desumano, levando sua existência da forma que podiam, longe demais da que desejavam.

Com o cair da noite, poucos restavam no cenário. As luminárias, as que ainda insistiam em funcionar, iluminavam muito mal os poucos metros a seu redor. Algumas faces sombrias passavam de um lado para outro, trocando palavras curtas e pacotes, indo e vindo sorrateiramente em meio à vegetação alta e sem cuidados.

Nestes momentos, era certo a tristeza bater forte em conjunto com lembranças de tempos melhores.

Mas como o dia, a noite também se ia e novamente tudo se repetia...

....

Naquela manhã, como em todas as outras, ali estava ele novamente observando tudo e todos com sua impassividade sem igual.

O jornaleiro, o pipoqueiro, os casais, os meninos, tudo exatamente como nos outros dias...

Mas uma peça desconfigurava o cenário, quebrando a harmonia do cotidiano da praça. O homem de roupa e pasta surradas ainda não aparecera.

Durante muitos anos, a figura triste e cabisbaixa nunca faltara um dia e o banco vazio indicava que algo seria alterado na rotina do lugar. Não mais lamúrias ou palavras em meio às lágrimas ao vento, não mais olhares vazios ou gestos de repreensão à vida.

Esta seria apenas mais uma dentre tantas as modificações de cenários que já presenciara. Neste dia, ninguém mais, a não ser ele, perceberia a alteração da cena diária.

Praticamente resignado a registrar mais aquele fato, como a única testemunha, não teve como perceber a figura apressada, caminhando a passos largos, vinda do outro lado da rua. Com sua pasta sob o braço esquerdo, cabeça baixa e olhar perdido, não viu quando o sinal de trânsito deu passagem aos carros e seguiu em seu caminho pelo meio da via. Um dos motoristas, também distraído, falando animadamente em seu aparelho celular, arrancou em sua direção, inevitavelmente dando conclusão à determinação do destino do pobre infeliz.

O choque surdo arrebatou-o de encontro ao fiel observador.

Em segundos, uma pequena multidão de curiosos se reuniu no local.

- Irrecuperável! Irremediavelmente irrecuperável... - disse esbaforido o dono da loja cuja vitrine jazia estilhaçada. - Não tenho como consertar...

- Com certeza... Mas o senhor é médico? - perguntou um dos curiosos.

- Médico, eu? Claro que não! Apenas um artista da relojoaria... - apontou para o letreiro ainda firme em seu lugar. - Eu estava falando do relógio, presente nesta loja desde sua inauguração, no século passado... - sua voz tremia. - Era a única testemunha do esforço de minha família em manter viva a história deste lugar...

Resignadamente, o relojoeiro recolheu os destroços e levou-os para dentro da loja. O coadjuvante jazia inerte por cima do vidro e madeira quebrados.

E os dias nunca mais se repetiriam...