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A solução|Audacioso|Ausência|Desejo|Fim|O pacote|Quarta|Sofreguidão|

Desejo

Se for compartilhar, ressalte o nome do autor: Alexandre Tavares Sergio

Ali estava ela novamente. Do outro lado da mesa, quase ao alcance de suas mãos. Piscou rápida e seguidamente os olhos, eliminando qualquer resíduo de enevoamento de sua visão e confirmou a presença próxima. Era ela realmente.

A oportunidade parecia perfeita. Todos haviam saído para o almoço e somente ele, e agora ela, se encontravam na empresa naquele horário. Se fosse rápido e agisse com propriedade, o desfecho seria a realização de um sonho antigo.

Aquelas curvas simplesmente o enlouqueceram desde o primeiro momento. Mantinham um ar de cuidado, com certo desapego pela formalidade. Um traçado sinuoso, minuciosamente estudado disfarçadamente. Se procurasse por defeitos, com cuidado e critério, sua postura característica, certamente não iria encontrá-los. Era o seu complemento ideal, sua outra metade, o que faltava em sua vida.

Esfregou as mãos, nervoso, fazendo menção de levantar-se. Olhou para os lados, as portas fechadas, ruído algum no pequeno cômodo. Recuou.

Tinha absoluta certeza do que queria, mas não podia se dar ao luxo da precipitação. Sua ação teria de ser planejada, cada pequeno ato de aproximação, para que não parecesse afoito em demasia. Palavras seriam absolutamente supérfluas.

Mediu a distância, calculando com quantos passos chegaria ao seu objetivo. Havia um ou outro obstáculo no caminho e por isso traçou um plano de movimentação, procurando evitar eventuais e indesejados tropeços. Não podia cair aos seus pés, confirmando o estouvado que era; não naquele instante. Isto estragaria completamente a cena que projetara cuidadosamente.

Seguindo seu planejamento, iria passo a passo até o outro canto da sala, fazendo o mínimo de barulho possível. A surpreenderia colocando as mãos ao redor de seu corpo, acariciando aquele lindo branco, até chegar ao dourado que tanto o fascinava. Então, submerso em um mar de sentimentos confusos, completamente envolvido, a traria até o peito em um abraço longo e sincero.

Repassando a cena, sentiu as pernas fraquejarem. O suor escorria de seu rosto copiosamente e as mãos, geladas, insistiam e não acatar as ordens do cérebro para que parassem de tremer. Precisava se controlar.

Mudando o foco, olhou para a tela do computador à sua frente. O texto recém redigido encontrava-se ativo com o cursor piscando de forma irritante e insistente na área branca do documento. A cópia impressa jazia sobre o teclado, revista, momentaneamente inerte, mas pronta para ser colocada em um envelope e entregue em seu destino. Brincou com o papel, deixando-o de lado em seguida. Não era hora para isso. Teria de se controlar e partir para a ação.

Tomado pela coragem que só os loucos apaixonados possuem, pôs-se de pé em um salto. Inspirando profusamente, ergueu a cabeça, alinhou os braços perpendicularmente ao tronco e deixou-se levar pelo desejo.

Ao atingir o ponto de contato, sentiu os lábios vibrarem, desassossegados pelo toque de suas mãos no corpo ansiado.

Foi inútil o esforço por manter-se focado no planejamento. Atirou-se voluptuosamente, puxando-a para si, entregando-se completa e perdidamente ao momento...

Uma Parker 1976, ponta de ouro e acabamento em madrepérola. A assinatura daquele documento não teria como sair mais perfeita...