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Ausência

Se for compartilhar, ressalte o nome do autor: Alexandre Tavares Sergio

Pela quarta vez no último minuto, ele olhava para o display do celular. Não se lembrava de haver combinado horário ou padrão para aquele telefonema, mas mantinha a certeza de que necessitava da vibração do aparelho em suas mãos para poder ter paz naquela noite.

Passara o final de semana pensativo e inquieto. Mãos o abraçavam, vozes o rodeavam, mas seu pensamento mantinha-se ativo somente para aquela ausência fundamental, dolorida, pulsante em sua alma.

Não se sentia completo.

Um som ao fundo revelava o término do domingo. Uma música conhecida, seguida de um desligar automático de um televisor fizeram-no ajeitar-se na cadeira.

Com o aparelho em suas mãos, respirou fundo e se propôs a procurar algo em seu computador que alimentasse a esperança que ainda mantinha viva de forma tênue, inconsistente.

Alguns escritos antigos, outros trabalhos, tantas imagens, jogos... Nada que o mantivesse em atenção por mais que poucos segundos.

Experimentou um livro e logo se aborreceu. A poesia pura penetrava em sua mente liberando ainda mais inquietação. Suas mãos tremiam...

Não se lembrava mais quando havia sido a última vez em que estivera em tal estado de tensão. Aliás, não se lembrava de ter passado nunca antes por tal estado de tensão.

As idéias não se mostravam claras e pensamentos e sentimentos conflitantes trovejavam em sua cabeça.

O aparelho permanecia inerte, sem ação.

Fechou os olhos. Tentou se lembrar como tudo havia começado, como havia chegado a tal ponto. Sem sucesso... Não havia como determinar o princípio de tudo. Fora algo repentino, intenso, inquietante, mágico mesmo... Sim, alguma espécie de mágica havia se passado...

O suor cobria seu rosto quando pensou em um banho. Seria uma forma de deixar que o tempo se encarregasse do destino, deslocando seu pensamento para uma ação imediata, sem ligação com a incerteza do futuro próximo.

Levantou-se...

A um passo da porta do quarto, caminhando em direção ao banheiro, teve seus movimentos bloqueados por uma iluminação diferenciada vinda de próximo ao teclado do computador.

Sim, ele vira uma luz...

O momento chegara...

Timidamente, virou-se em direção à estante, transformada em escrivaninha por necessidade de aproveitamento de espaço, levando os braços à frente, na tentativa inútil de alcançar o objeto pulsante.

Seu corpo não respondia adequadamente às instruções de seu cérebro e, com um esforço imenso, extremado pela fragilidade de seu estado emocional, jogou-se de encontro ao aparelho. Na queda, esbarrou o braço direito no teclado que levou ao chão juntamente com o celular...

Estirado ao lado do produto de sua angústia, pode ver em meio a distorções a mensagem que chegara à tela de seu aparelho, agora agonizante:

"Manutenção concluída. Obrigado por aguardar as 48 horas solicitadas. Sua linha está liberada e pronta para utilização imediata."

E o display se apagou... Definitivamente...