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A solução|Audacioso|Ausência|Desejo|Fim|O pacote|Quarta|Sofreguidão|

A solução

Se for compartilhar, ressalte o nome do autor: Alexandre Tavares Sergio

Ele parou em frente à janela e olhou para baixo. Os carros passavam apressados, enquanto piscavam e brilhavam as luzes da noite alta. Pensou em pegar um cigarro no maço jogado a um canto, mas desistiu da idéia. Prometera parar. O copo em cima da mesa, próxima à cortina aberta a sua esquerda tornou-se o alvo perfeito. O resto do “scotch”, no melhor estilo “cowboy”, desceu pela garganta despertando o cérebro para o sabor envelhecido. Girou sobre os calcanhares lentamente mirando a cama desarrumada. O barulho do chuveiro chegava forte aos seus ouvidos, lembrando o que acontecera há pouco.

Instintivamente, caminhou até a mesa de cabeceira e olhou para o celular. Nenhuma ligação, nenhuma mensagem. A tranqüilidade de sua vida podia ser exemplificada perfeitamente através daquele aparelho. Raramente sentia-o vibrar no bolso da calça ou por cima de algum móvel. Preferia assim. Que o mundo não percebesse sua existência. Seria melhor para todos.

Sentando-se na beira da cama, calçou os chinelos. Podia andar completamente nu por toda a casa, mas nunca o faria descalço. A sensação de sentir o chão diretamente à sola dos pés era um incômodo que não conseguia suportar. Por diversas vezes tentara deixar esta mania de lado, mas sentia que era mais forte que sua vontade. Acabara por desistir.

À gaveta meio aberta pegou o estilete que usava para abrir envelopes. Girou com cuidado o objeto entre os dedos, procurando decidir se aquela seria a melhor maneira de terminar com tudo. A água já corria há quinze minutos e precisava tomar uma atitude. Pegou o envelope de uma cobrança qualquer e testou o corte. Não estava ruim, mas, por via das dúvidas, resolveu substituir a lâmina pouco gasta. Era crucial não falhar na tentativa.

Virando a cabeça para a direita, viu a folha de papel sobre o travesseiro. Ao ler aquelas palavras pela primeira vez não acreditara. Somente após a terceira leitura e algumas vãs tentativas de refutar praticamente a verdade é que percebera que não havia outra maneira de resolver o problema. Falhara e por sua própria culpa chegara àquele ponto sem retorno.

Suspirou profundamente captando as forças que lhe faltavam para executar a derradeira ação. Levantou-se de um salto. Se precisava ser feito, então o faria com vontade. Apertou o passo até a porta aberta do banheiro e examinou por instantes a silhueta por trás do vidro temperado sob a água quente. As curvas bem definidas, arredondadas nos lugares certos, perfeitas em estilo e forma. Lembrava da primeira vez em que se encontraram na loja de conveniência. Ficou à distância, com medo, admirando os movimentos graciosamente ritmados. Sempre fora tímido e somente após alguns meses de observação é que conseguiu coragem suficiente para se aproximar e finalmente perceber que não estava fora de seu alcance. Sofrera muito com o receio da rejeição, tolamente.

Avançando, apoiou-se no suporte de toalhas repensando suas ações seguintes. Teria de aplicar o corte exatamente no local estudado, evitando marcas desnecessárias. A dor de ter de agir dessa forma já era suficiente. Se fosse possível, tentaria evitar maiores desprazeres.

Como ainda fraquejava em ter de cumprir seu destino, resolveu agir rapidamente abrindo estrondosamente a porta do box. Sem esperar reação, suando nervosamente, desceu a lâmina com firmeza e frieza que até mesmo a ele surpreenderam.

Estava feito. Não havia retorno. Piscou seguidamente observando a imobilidade sobre o piso molhado. Fora preciso.

Fechou a torneira interrompendo o fluxo da água. Sem se secar, parcialmente aliviado da tensão do momento anterior, retornou à cama deixando pegadas pelo carpete em seu caminho. Sentou-se com o corpo em calafrios, deixando o estilete ir ao chão. Pegou o pedaço de papel e, com um sorriso no canto dos lábios, leu as fatídicas frases:

“Boneca Hula-hula, dançarina automática, faça você mesmo. CUIDADO! Cola de secagem rápida. Em caso de colagem indevida, deixe sob água morna por 20 minutos e separe as peças com objeto cortante.”